<$BlogRSDUrl$> Marabunta Post Scriptum


Marabunta Post Scriptum
 

quinta-feira, dezembro 18, 2003


[16:48]

(intervalos) 

Que é isto por encontrar e que não deixo de pensar - a vontade de ser no futuro
ou o destino teimando em não se concretizar?

A desejar,
há que controlar a ansiedade
assim terá de saber esperar.

A esperar é preciso acreditar,
mas se acredita em nada ajuda desejar,
impregna uma perspectiva de incerteza que pode mesmo sufocar.



 


Post marabunta

 

terça-feira, novembro 25, 2003


[19:03]

intervalares 

como ultimamente não tenho tido muito tempo para grandes divagações sugiro aos novos visitantes que se entretenham com o espólio dos últimos meses. Quanto aos queridos leitores repetentes, aceitem estas palavras apenas como um até já.



 


Post marabunta

 

quarta-feira, novembro 12, 2003


[18:22]

esmiuçar 

Prendo-me a um mesmo ponto de partida, quando nada me surge de início: eu, o teclado, o murmurinho do escritório em lamurias e a propensão para escrita outonal, independentemente da estação do ano que nos acorda. Nem sempre triste, nem sempre fogoso.

A tónica hoje é o cansaço. O cansaço de ontem e do fatídico amanhã cansado de hoje.

Esmiuçaram-me a motivada boa disposição ao pesar do olhar. Ao que deixo tombar as pálpebras em protecção. Cerro os portões.

Finjo a disponibilidade, por contrato, cedendo e cedo mais um pouco de mim.

A liberdade é a utopia de quem afirma poder escolher,

Lamuriar é a despedida de quem desistiu de tentar, mas aceita aguentar.



 


Post marabunta

 

quarta-feira, novembro 05, 2003


[19:13]

regras 

Regras, como condicionadores, são frágeis, dependem da nossa colaboração. Tratam-se de balizas psicológicas impostas pelas razões que forem, reconhecidas na autoridade de alguns, mas susceptíveis de aceitação geral.

Um caso prático, assimilando características de grupo de estudo comparativo, apresenta-se na seguinte situação real: em dois dos andares, open space, no escritório onde trabalho, aboliu-se o tabaco. Num, por iniciativa dos próprios, decidiu-se abolir o consumo de cigarros, a qualquer hora do dia e contemplando as duas salas de reunião anexas ao open space; no outro andar, de características semelhantes, em consequência e por determinação superior, foi também abolido o fumo. A perspectiva dos dois grupos era já radicalmente diferente – no primeiro todos apoiaram a iniciativa e no segundo apenas os não fumadores regozijaram. À parte conjecturas paralelas sobre a legitimidade dos fumadores do segundo caso, o que é facto é que ao primeiro dia abria-se já neste andar a excepção para o fumo fora de horas, ao segundo dia fumava-se já nos pequenos gabinetes e hoje à hora de almoço e agora durante a tarde, alguns elementos ignoravam já as regras impostas assumindo o desejo de fumar. De notar que em ambos os casos foram criados espaços de fumo autorizado.

O mesmo exemplo se verifica frequentemente no dia-a-dia. As regras, ou as respectivas sanções, nunca impediram a proliferação da prostituição, das drogas, dos abortos, dos excessos de velocidade na condução, etc. Numa perspectiva mais abrangente a vontade de alguns torna-se imposta à maioria, sejam esses alguns os que determinam as regras, sejam alguns os que quebram as regras e influenciam a tendência das massas.

É suposto então inferir-se a inutilidade das regras? As regras são de facto necessárias em molde a uma vida em sociedade, mas o senso comum não chega na sua determinação, como se conclui no exemplo do tabaco, dos excessos de velocidade, entre outros, a viabilidade de uma regra é antes certificada no acordo com as partes, que basta uma pessoa para ridicularizar uma imposição, mas são precisas muitas para dignifica-la. O problema neste linha de raciocínio é que dá muito mais trabalho conseguir o assentimento das partes, implica ouvi-las, respeita-las e compreende-las, implica consentir compromissos, mas é de compromissos que se vive em sociedade.

A regra é um insulto à liberdade do indivíduo,
enquanto um acordo é a essa liberdade em exercício.



 


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sexta-feira, outubro 31, 2003


[19:38]

beleza vs. posse 

Beleza, admirar é deseja-la, para nós, só para nós. É querer guarda-la para as vezes todas que quisermos venerar, ansiando por algo mais do que a mera admiração. A beleza por si só não satisfaz, tem de nos pertencer, admirem os outros também, sabendo que é nossa essa beleza.

Quando partimos de viagem regressamos vazios, do que largamos sem trazer; ou a bela moça do nosso dia-a-dia povoando desejos, não nos preenche na mera admiração; como não nos permitimos a contentar com o carro das revistas, em revistas da especialidade; a música da melodia traulitada entre destinos terá de estar na aparelhagem à chegada a casa, ou no computador.

É masculino e feminino, ocidental ou oriental, surge connosco de nascença revelando-se logo à infância nas birras pelo que observamos, gostamos, queremos e não recebemos. Há quem aprenda a lidar na conformação, outros há que crescem artistas.

Mas nunca a terá dono, a ironia é mesmo essa e a frustração daí advém. A beleza requer distância para ser admirada, que na eventual posse o seu encanto cede a outros propósitos, perde a mística que lhe emprestava o fascínio empático, e ao ceder perde, na tristeza, a sua beleza inicial. Os destinos turísticos da nossa terra banalizados em desdém em direcção ao trabalho; a bela moça passa a ser a rapariga que não gosta da mesma música, sem esquecer a irritante tendência para os enjoos; o carro dos sonhos é rapidamente deposto por outra novidade que agora ansiamos; e a música, bem, a música é a excepção confirmada na regra, a beleza pura na música nunca enjoará (mas talvez também nunca chegue a ser nossa).

É tão distante a beleza que nunca nos poderemos aproximar, correndo o risco de esta se desvanecer na crua e feia realidade, talvez por isso o céu seja tão belo e o paraíso que guardamos para o fim e depois dos nossos dias, nunca se venha a concretizar.



 


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sexta-feira, outubro 24, 2003


[19:02]

melancolia 

Será da chuva que surgiu envergonhada, do Outono que receia em assumir-se, será este o salão de espera da enfermaria enquanto aguardamos nosso nome soletrado ao intercomunicador ou nós enfermos lamentamos ao desvario as misérias diárias por deixar passar o tempo. Valerá a pena reservarmo-nos por melhoras?

Fico por aqui, remetendo ao silêncio esta melancolia, escrevendo ao ritmo do suspiro e sem sentir a força da idade referenciada em Horácio.

E se por obra do destino desse de frente, passeando pelo mercado dos peixes e frutas à fresquinha hora matinal, com o Doutor das Falas Brancas, e me recomendasse ele um biscoito analgésico, de sabor a maçã, na promessa de despertar a acção, adormecendo a preconceituosa preguiça? Talvez recusasse ainda sob o efeito desta, numa falácia sórdida, resumindo a vida a uma espiral de humor duvidoso. A grande ilusão jaz na esperança por uma intervenção oculta, como se soubessemos lidar com a mudança.

A melancolia, sabor amargo, vicioso, sem alertas aos efeitos mortais, é triste no saldo final mas saboroso no dia-a-dia. Imagino-a como o chocolate preto. Nada substitui o chocolate preto.

Ah, porque estou tão sozinho
Ah, porque tudo é tão triste
Ah, a beleza é existe




 


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segunda-feira, outubro 20, 2003


[21:38]

Verdade 

À Verdade sobra pouco espaço para dúvidas, se mesmo algum e esta afirmação na sua insegurança, só revela o quanto tal é mentira. Mas a ser falso, o oposto será verdadeiro, resultando em algo como «à Verdade sobra muito espaço para dúvidas» cuja certeza põe também em causa a sua veracidade.

Não é fácil. Abordar a Verdade sem a conhecer torna-se tão difícil como querer explicar esse mistério que é a mulher, sendo homem, ou mesmo sendo mulher! Porque a Verdade é isso mesmo, um mistério, nunca desvendável.

Ao dissertar um pouco em torno da Verdade, recorremos a pressupostos que temos como verdadeiros, cuja condição é exactamento o que se procura desvendar, pondo-se em causa todo o raciocínio que se pretende construir como demonstrado na introdução deste pequeno discurso. Porém, avancemos na análise.

1º pressuposto - A verdade é uma avaliação a um objecto.
A verdade não é o objecto em si, mas antes a sua condição perante outras. Depende da existência de algo, seja uma ideia, um conceito, palpavel ou não, cuja condição é avaliada perante a lupa da verdade, confirmando-se ou não.

2º pressuposto - À Verdade opõe-se o Falso
Como elemento avaliador a verdade poderá existir ou não, sendo que na ausência consideramos o falso, como oposto à Verdade

3º pressuposto - A Verdade é una
A verdade não pode ser falsa e verdadeira, que o próprio elemento falso desfaz a sua condição de verdade, remetendo-a para a falsidade, conclusão já aplicada em matemática.

4º Pressuposto - A Verdade só o é aos olhos de alguém
A Verdade, com base no primeiro pressuposto, depende de alguém que a interprete como tal, pois para uma avaliação terá sempre de existir um avaliador que valide a sua condição.

5º pressuposto - A Verdade é um todo
A Verdade assume-se como um facto, por inteiro, em todas as suas vertentes e perspectivas, um dado adquirido, confirmado pelo tempo. Pô-la em causa é retirar-lhe a sua condição de veracidade, e se uma observação inquestionável é aceite unanimemente como verdade, uma observação questionavel será apenas verdade para uma parte e não para o todo, deixando de ser, portanto Verdade.

6º pressuposto - A Verdade não depende do avaliador
A Verdade, com base no último pressuposto, só o é quando aceite por todos como tal, de onde se conclui que não depende do seu avaliadar, mas antes da sua relação com o objecto: se este é verdadeiro ou não, e sendo assim será para todos os avaliadores.

Aqui chegamos à primeira barreira, que complica a subida a um 7º pressuposto.
Se a verdade não depende do avaliador para o ser, mas por outro lado depende para que este a valide deparamo-nos com duas vertentes da verdade, só o é quando alguém a reconhece, mas este no objecto só poderia reconhecer a verdade. Porém, o reconhecimento da verdade depende de uma capacidade do observador para a verificar como tal e na ausência dessa capacidade poderá a verdade ser interpretada como falsa, quando não o é? E se a verdade é questinável ao ponto de ser confundida, mesmo por falta de capacidade do observador, isso não põe já em causa a sua condição verídica?

7º Pressuposto - A Verdade é uma certeza
Para que seja aceite por todos, e tal seja uma garantia, a verdade inevitavelmente terá de ser uma certeza. No caso que antecede este pressuposto, o caminho seguido era já de falsidade, pois abria campos de dúvidas, frágeis na contra-opinão, não sustentável portanto ao 3º e 5º pressuposto.

(a continuar)


 


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